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Relatório denuncia impactos da produção de cana-de-açúcar na Amazônia
15/11/2008 - Bruno Calixto / www.amazonia.org.br
Os biocombustíveis causam enormes impactos ambientais e sociais em todo o seu processo produtivo, além de causar mais dano ao meio ambiente do que os combustíveis fósseis, de acordo com o relatório "Os impactos da produção de cana no Cerrado e Amazônia", produzido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

O estudo analisa os impactos da produção da cana-de-açúcar e do biodiesel no país, com foco no bioma Amazônia, além do Cerrado, e faz um estudo de caso de alguns estados produtores.

A partir de dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o relatório contesta o argumento de que não existe produção de cana-de-açúcar na Amazônia.  A Conab registrou um "aumento na produção de cana na Amazônia de 17,6 milhões para 19,3 milhões de toneladas entre 2007 e 2008".  A região norte registrou os maiores índices de crescimento da produção de cana-de-açúcar do país.  Juntos, Tocantins, Amazonas e Pará tiveram um aumento de 46,8% em relação à safra anterior, atingindo a marca de 1,6 milhão de toneladas.

O problema é que o carbono da destruição das florestas não será recuperado pelo plantio de cana-de-açúcar.  Além disso, a substituição da floresta amazônica para a produção de biocombustíveis compromete a biodiversidade.  O relatório também critica os projetos de zoneamento ecológico econômico.  "O zoneamento proposto pelo governo na Amazônia não somente permitirá, mas também incentivará o plantio de cana-de-açúcar".

Cana na Amazônia
O relatório analisa os estados que produzem biocombustível e os impactos que essa produção causa.  No Acre, a usina Álcool Verde compromete os recursos hídricos e coloca em risco os sítios arqueológicos conhecidos como Geoglifos.  Além disso, a usina é financiada com recursos públicos.

No Amazonas, a Usina Jayoro, propriedade do grupo Coca-cola, destruiu cerca de 10 mil hectares de florestas para poder plantar cana-de-açúcar.  "Outro problema é o uso de agrotóxicos e o vinhoto, que têm seus resíduos depositados nas lagoas e igarapés, chegando até o rio que é usado para banho pela população local".

No Mato Grosso, existem atualmente onze usinas de cana-de-açúcar em funcionamento, e cinco projetos de novas usinas, que causam impacto na Amazônia, no Cerrado e Pantanal.  Os insumos químicos poluem os rios e causam danos à saúde dos trabalhadores.  Além disso, há graves denúncias de violações de direitos trabalhistas nas usinas da região.

Em relação ao Pará, o relatório cita um estudo da Universidade de São Paulo (USP) que indica que o estado já está sendo apontado como o que tem a maior vocação para a expansão da cana-de-açúcar do país.  "O Pará poderia dispor de 9 milhões de hectares para produção de cana, o que significaria um aumento de 136% na produção de etanol no Brasil".  Além do desmatamento, o estado apresenta um grave problema, a incidência de trabalho escravo.

O Tocantins, região de transição para o bioma Amazônia, teve um aumento de 16% na produção entre 2007 e 2008.  A expansão resultou no aumento do preço da terra, gerando conflitos fundiários e intensificou os conflitos pelo controle da água, devido à prática de irrigação no rio Santo Antônio.  Existem também três projetos de etanol em Rondônia e dois em Roraima, todos contanto com apoio ou subsídios dos governos estaduais ou federal.

Efeitos no clima
De acordo com o estudo, os efeitos positivos dos biocombustíveis no clima - por substituir as emissões de gases de efeito estufa provenientes de combustíveis derivados do petróleo - são superestimados.  "O problema de muitas pesquisas realizadas anteriormente foi excluir os impactos ambientais do modelo de produção, de utilização de recursos naturais (como terra e água) e da pressão sobre áreas de preservação ou de produção de alimentos".

O estudo defende que os impactos devem ser avaliados a partir de todo o ciclo da expansão dos biocombustíveis, considerando o a mudança do solo e o cultivo extensivo de monoculturas.

O relatório aborda uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Tropicais Smithsonian, que procura avaliar esses impactos.  Segundo esse estudo, "o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e o biodiesel feito a partir da soja causam mais danos ao meio ambiente do que os combustíveis fósseis".

Lançamento
O lançamento do relatório será na próxima terça-feira (18), às 9 horas, em São Paulo, durante o seminário internacional "Agrocombustíveis como obstáculo à construção da soberania alimentar e energética".  A publicação será debatida e fará parte das análises no seminário, promovido pela Via Campesina entre os dias 17 e 19.  


Leia na integra no site da CPT