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Quando a tendência vira fato
28/07/2010 - Greenpeace Brasil
O gráfico mostra a diferença entre os números do Deter e do Prodes. Os dados de 2010 do Deter ainda não estão completos, e o Prodes ainda não saiu.

No fim da última semana, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, chamou a imprensa para divulgar “dados parciais” do desmatamento na Amazônia.  Com números do sistema Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), ela anunciou que, entre agosto de 2009 e maio de 2010, o desmatamento na região caiu 47% em relação ao mesmo período do ano anterior.  Um recorde, já anunciavam os jornais no dia seguinte.

Na festa propagada pelo governo, no entanto, pouca gente parou para ouvir quem entende de monitoramento.  Com pouco destaque, o jornal Folha de S. Paulo entrevistou Dalton Valeriano, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe.  Ele foi categórico: “Afirmar que o país está desmatando menos ainda é mera especulação”.

Valeriano se refere à imprecisão do Deter em medir o tamanho das áreas devastadas.  Criado em 2004 pelo Inpe, o sistema veio com o objetivo de, mensalmente, alertar os órgãos de fiscalização quando algo estivesse errado pela floresta.  Usando imagens de satélite, o sensor MODIS é capaz de “enxergar” cortes rasos e processos de degradação por extração de madeira, mas somente em áreas maiores que 25 hectares.  As derrubadas menores que isso ficam de fora.  O que não é pouca coisa.  De acordo com o próprio pesquisador, hoje os desmatamentos menores representam 60% de toda a devastação.

“Quando o governo começou a usar o Deter e a mandar equipes de fiscalização para os locais que estavam sendo desmatados, os grandes desmatadores entenderam a lógica.  Agora, em vez de desmatar uma extensão enorme, eles desmatam várias áreas menores, para que o Deter não pegue”, explica André Muggiati, da Campanha da Amazônia do Greenpeace, acrescentando que a imprecisão também ocorre por conta das nuvens: quando o céu está coberto – o que não é incomum – nem todas as áreas são identificadas.  “Qualquer dado que se refira à área desmatada é equivocado se for gerado por esse sistema.  O Deter não foi feito para medir o tamanho do desmatamento”.

Dados imprecisos, notícias idem

Por se tratarem de números falhos, o anúncio feito pelo MMA acaba gerando notícias equivocadas.  No editorial do Estado de S. Paulo desta segunda-feira, por exemplo, o jornal demonstrou satisfação com as estatísticas e observou que, pelo jeito, a agricultura e a pecuária estavam seguindo trilhas mais saudáveis, ao mesmo tempo em que a extração predatória de madeira estava minguando.  Ledo engano.

Se o agronegócio está, aos poucos, diminuindo sua pressão sobre a floresta, não se pode falar o mesmo do setor madeireiro.  Quem o diz é também o Inpe, com dados do sistema Degrad, criado há dois anos para medir, aí sim, o tamanho de áreas em processo de degradação por extração predatória de madeira.

Enquanto o desmatamento demonstra queda nos últimos anos, o Degrad mostra que a degradação na floresta seguiu o caminho inverso.  Enquanto, em 2007, quase 16 mil quilômetros quadrados foram identificados em estágio de degradação, a taxa subiu para mais de 27 mil no ano seguinte.  Os números de 2009, que já deveriam ter ido para a rua, o MMA ainda não soltou.

Para calcular as áreas degradadas, o Inpe utiliza imagens do satélite Landsat, muito mais preciso que o usado pelo Deter.  É a partir do que ele aponta que são geradas as taxas anuais de desmatamento na Amazônia.  A metodologia adotada para se fazer essa análise ganhou o nome de Prodes (Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia).  Muito mais refinado que o Deter, esse sistema consegue identificar desmatamentos a partir de 6,25 hectares, deixando de fora uma fatia muito menor da devastação.

Para exemplificar a diferença na precisão entre os dois sistemas, não é preciso ir muito longe.  Em 2009, o Deter apontou cerca de quatro mil quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia.  Pouco tempo depois, saíram os números do Prodes, que havia identificado muito mais: quase 7.500 quilômetros quadrados derrubados.  Nesta terça-feira, o Imazon também soltou seus números de monitoramento mensal.  Contrapondo os dados do Deter, o instituto afirma que, de agosto de 2009 a junho de 2010 houve, não declínio, mas um aumento de 8% no desmatamento, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Portanto, todo cuidado é pouco na hora de soltar números para a imprensa, ainda mais se tratando de ano eleitoral.  “Uma série de fatores levou à tendência de redução do desmatamento nos últimos anos.  A moratória da soja e o compromisso público assumido pelos grandes frigoríficos de não comprar mais gado de áreas devastadas influenciaram bastante, assim como as ações de fiscalização”, diz Marcio Astrini, da Campanha Amazônia do Greenpeace.  “No ano passado, com crise financeira mundial, o que caiu foi a procura pelas commodities.  Com menor demanda, os setores que produziam pressionando a floresta diminuíram o ritmo, e isso teve reflexo na queda do desmate”.

Tendências à parte, a atenção deve ser redobrada.  O mês de julho já apontou no calendário, e é justamente a partir dessa época que começa o período de seca e as motosserras são ligadas a todo vapor.  Quantas árvores vão cair nos próximos meses, ainda não se sabe.  Mas elas têm que entrar na conta antes que qualquer anúncio seja feito.