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Alcoa deposita sua esperança de recuperação na Amazônia
22/06/2010 - Robert Guy Matthews, The Wall Street Journal / Valor Econômico
Esta cidade isolada e calorenta, com suas ruas empoeiradas e casas banhadas ao sol, pode conter a chave para a recuperação da maior produtora de alumínio do mundo, a Alcoa. A empresa foi prejudicada por uma das crises mais rápidas e profundas na indústria de mineração e metais, e o plano de recuperação apresentado pelo diretor-presidente, Klaus Kleinfeld, foi sacar o talão de cheques da empresa e construir ou comprar quase US$ 4 bilhões em novas operações. Aqui, nas profundezas da Floresta Amazônica, a empresa está gastando US$ 1,5 bilhão para criar uma nova e barata mina de bauxita. A Alcoa acredita que se gastar agora poderá se tornar uma produtora de baixo custo quando a economia finalmente estabilizar. A dúvida sobre quando, onde e quanto dinheiro gastar é um enigma para os executivos do setor de metais e mineração mesmo durante os períodos de vacas gordas. Mas escolher entre uma estratégia de poupar e uma de gastar é crucial para uma empresa como a Alcoa neste difícil cenário econômico, porque durante anos ela perdeu terreno para concorrentes mais enxutas e eficientes como a Rio Tinto, a UC Rusal e empresas menores. De maneira geral, Kleinfeld tem seguido uma estratégia diferente da maioria da concorrência. Muitas empresas tentaram rechear o caixa ou cortar custos quando os preços dos metais e a demanda estavam no auge, 18 meses atrás. A Alcoa cortou custos, eliminando quase US$ 3 bilhões em suas operações, fechando fábricas, demitindo 60.000 pessoas e vendendo ativos que não eram essenciais. Mas também usou essas economias para se reposicionar como um produtor de baixo custo. No momento, a Alcoa ainda está aumentando a produção de sua nova mina de bauxita aqui na Amazônia, avaliada em US$ 1,5 bilhão. A saliente mina lembra uma nave espacial branca encravada na mata. A bauxita barata que ela produzir alimentará um complexo maior em São Luís, MA, que a transformará em alumina, que será então despachada de portos brasileiros para as usinas de alumínio da Alcoa ao redor do mundo. Seis meses atrás, a Alcoa informou que investiria US$ 2,2 bilhões para se tornar sócia de um novo complexo de mineração na Arábia Saudita. A primeira remessa de metal do complexo deve ficar pronta para ser vendida em 2013. O local é tão remoto que os moradores, que viajam 12 horas de barco até a cidade mais próxima, Santarém, vivem há séculos da agricultura, da pesca e da extração de castanhas do Pará. Para desenvolver a mina, foi preciso derrubar florestas, construir estradas e treinar agricultores e pescadores. Mas, em 2008, "realmente cogitamos encolher" o projeto, disse Kleinfeld. Em meio a uma queda de 60% na cotação do alumínio e estoques transbordantes, os investidores da Alcoa pressionavam a empresa a crescer organicamente ou se vender. Em 13 de janeiro de 2009, Kleinfeld chamou à sala do conselho os 20 executivos mais importantes da empresa, para uma reunião de três dias a portas fechadas. Os executivos começaram a estudar os números dos cenários mais pessimistas e mais otimistas, tomando decisões sobre se era necessário fechar fábricas e demitir operários, e também selecionando ativos para vender. "As pessoas se levantavam e andavam pela sala só para se livrar do estresse", diz Kleinfeld. Os executivos também decidiram "que o Brasil era um peça importante do quebra-cabeça", diz ele. O Pará oferecia uma fonte barata de bauxita, ingrediente crucial para a produção de alumina e, posteriormente, do alumínio. A mina também fica relativamente perto da usina de processamento de bauxita da empresa em São Luís. Ainda por cima, o governo do Brasil mostrava estabilidade, sua economia estava em crescimento e o suprimento de eletricidade era relativamente barato e confiável. E a vasta costa do país facilitava o transporte marítimo de metais e minerais para a América do Norte, a Europa e a China. Quando a Alcoa propôs pela primeira vez uma mina de bauxita aqui, alguns moradores se revoltaram, reclamando que ela iria destruir suas terras e seu modo de vida. Para construir a mina, a empresa precisaria derrubar quase 10 quilômetros quadrados de floresta, um terreno que visto de cima parecia um viçoso tapete verdejante. Há mais de 300 espécies de pássaros na área e mais de 50 tipos de cobra, assim como flores de maracujá selvagem e altas faveiras cujas flores brancas pareciam uma explosão de fogos de artifício. Grupos de ativistas tentaram questionar as licenças da Alcoa para construir em áreas protegidas pelo governo federal e ameaçaram incendiar as operações da empresa. Mas o atual governo brasileiro tem tentado se equilibrar entre incentivar o desenvolvimento e proteger o meio ambiente e as culturas indígenas do país. As autoridades dizem que foram consultadas pela Alcoa no decorrer do processo e aprovaram medidas para restaurar a vegetação, como plantar 20 árvores para cada uma que fosse derrubada. De fato, até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que queria que o projeto fosse um exemplo de como o país pode se tornar uma potência da mineração e da indústria, participou da inauguração oficial da mina ao lado de Kleinfeld. Mas ainda não se sabe se a cara estratégia da Alcoa vai ajudá-la a assumir a liderança do setor. Tanto a UC Rusal quanto a Rio Tinto estão trocando de marcha e passando da fase de poupar para a de elevar a produção em locais com o menor custo possível. E isso faz da Alcoa, mesmo com sua nova mina brasileira e a sociedade na Árabia Saudita, ainda uma produtora com custos mais altos que os de suas rivais. |
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